Mais do que uma doença neurodegenerativa: Doença de Huntington afeta também o sistema digestório dos pacientes.
A Doença de Huntington (DH) é uma doença neurodegenerativa hereditária rara - ou seja, é uma doença que causa a morte de neurônios e é passada de pai/mãe para os filhos. A DH é causada por uma mutação, que é uma alteração, em um gene chamado de huntingtina (htt). Esta doença não tem cura e um portador do gene com a mutação tem 50% de chance de passar o gene para seus descendentes. Os principais sintomas surgem na meia idade (35-55 anos) e incluem movimentos involuntários que lembram uma dança, por isso que antigamente a DH era chamada de Coréia de Huntington (do grego khoreía, dança), e também déficits cognitivos e transtornos de humor. Além disso, a doença pode afetar o funcionamento de outras partes do corpo, como o sistema digestório, por exemplo, causando dificuldade de engolir, gastrite, esofagite, diminuição das contrações dos intestinos, constipação ou diarreia, má absorção de nutrientes, perda progressiva de peso etc.
Para
desvendar os mecanismos envolvidos na DH muitos estudos são realizados, mas
poucos deles são sobre o trato gastrointestinal (TGI) e desses a maioria é
realizado em modelos animais da DH. Mas uma pesquisa
realizada em 2017, por Sciacca e colaboradores, estudou, além de um modelo
animal, uma amostra humana do TGI de uma pessoa com DH. A amostra veio de uma
mulher de 56 anos que, desde os 47 anos, apresentou constipação severa e
progressiva, evoluindo para paralisia neuromuscular intestinal – quando os
neurônios e os músculos do intestino param de funcionar, sendo necessário
realizar uma cirurgia para remover uma parte do colón, que é uma região do
intestino. A amostra do colón retirada da paciente foi então utilizada nesse
estudo, sendo comparada com uma amostra de colón de um indivíduo que não
possuía DH e com as amostras de um modelo animal para DH. O modelo animal
utilizado foi o camundongo transgênico R6/2, que possui uma parte do gene da
htt mutada e apresenta sintomas semelhantes aos da DH em humanos. Para tentar
descobrir quando a disfunção intestinal se inicia, o animal foi investigado em
três estágios diferentes do desenvolvimento da doença: antes da manifestação dos sintomas (com
quatro semanas de idade ), no início da
manifestação dos sintomas (com oito semanas de idade) e em uma fase avançada
dos sintomas (com doze semanas de idade). A morfologia do tecido
gastrointestinal foi avaliada (comprimento das vilosidades e espessura da
mucosa intestinal), além disso, visto que o TGI é densamente inervado por uma
rede complexa de neurônios, o sistema nervoso entérico (SNE), foram avaliados o
número de neurônios e a presença de alguns neuropeptídeos entéricos – moléculas
liberadas por esses neurônios.
O
estudo demonstrou anormalidades morfológicas nas amostras dos camundongos R6/2
e na amostra humana com DH, bem como redução dos neurônios e dos neuropeptídeos
entéricos.
Os resultados indicaram que os camundongos transgênicos apresentaram uma diminuição dos neuropeptídeos entéricos a partir da fase pré-sintomática (antes dos sintomas motores) e que o número de neurônios entéricos estava diminuído nos animais a partir da fase inicial dos sintomas. Por outro lado, somente na fase avançada dos sintomas, a espessura da mucosa e o comprimento das vilosidades intestinais apresentaram uma redução significativa.
De
modo geral, este estudo demonstrou que existem alterações importantes no TGI na
DH e que essas alterações podem ocorrer antes mesmo do surgimento dos sintomas
da doença. A confirmação dessas anormalidades, bem como a continuação da
pesquisa nessa área, são importantes e devem ser levadas em consideração para
futuras estratégias terapêuticas e nutricionais contra essa doença devastadora.
Referência
Sciacca,
S., Favellato, M., Madonna, M., Metro, D., Marano, M., & Squitieri, F.
(2017). Early enteric neuron dysfunction in mouse and human Huntington disease. Parkinsonism & related disorders, 34, 73-74.
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