Transtornos do Neurodesenvolvimento: a eficácia do uso de modelos animais
Você conhece
alguma criança com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade,
popularmente conhecido como TDAH? Talvez já tenha tido contato, ou de repente
ouviu falar que o “fulano” está no Espectro Autista? Quem sabe já teceu
pensamentos ou palavras acerca de pessoas diagnosticadas com Esquizofrenia?
O TDAH, os
Transtornos do Espectro Autista (TEA) e a Esquizofrenia são alguns exemplos dos
chamados Transtornos do Neurodesenvolvimento. Podemos citar ainda os
Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), a Síndrome Alcoólica Fetal
(SAF), Transtornos Motores, Transtornos de Tique, e muitos outros.
Normalmente o
diagnóstico destes transtornos é realizado por um médico e se caracteriza por
um conjunto de sinais e sintomas que, frequentemente, estão vinculados a outros
prejuízos decorrentes do neurodesenvolvimento, as chamadas “comorbidades”. Por
exemplo, é bastante comum indivíduos com TEAF apresentarem também TDAH; ou
crianças com TEA mostrarem déficits intelectuais relacionados à interação
social. Os primeiros sinais de que alguma coisa parece estar desviando da
normalidade observada em “crianças típicas” costumam ser percebidos por
familiares próximos ou professores. Mediante tais observações, é importante
procurar ajuda profissional o mais rápido possível, possibilitando iniciar
intervenções específicas para os prejuízos observados. Profissionais de
diversas áreas podem ser requisitados e, frequentemente, se faz necessário uma
equipe multiprofissional (médicas, psicólogas, fonoaudiólogas,
psicopedagogas...).
Independente de
existir ou não um diagnóstico, na presença de déficits em qualquer área do
desenvolvimento, a intervenção deve iniciar o mais cedo quanto possível. Isso permite
intervir em janelas específicas do desenvolvimento neurológico, garantindo um
melhor prognóstico e consequentemente, maior qualidade de vida ao indivíduo e
seu círculo social.
Muitas vezes as
possíveis causas para o surgimento destes transtornos não é investigada.
Sabe-se que em muitos casos existe forte carga genética, no entanto, grande
parcela destes transtornos se relaciona com influências ambientais no período
pré e perinatal. Grande parte destes prejuízos pode ser amenizada, ou evitada,
com mudanças ambientais e comportamentais durante a fase intrauterina, bem como
nos primeiros anos de vida. Um exemplo de transtorno que pode ser totalmente
evitado é o TEAF, onde basta a gestante não consumir bebidas alcoólicas durante
a gestação e amamentação.
Os períodos críticos
do desenvolvimento se referem às janelas temporais que marcam o início e a
finalização de cada estrutura do organismo. Por exemplo, em humanos, braços e
pernas iniciam o desenvolvimento no começo da quinta semana de gestação e, ao
final da oitava semana estas estruturas já estão completamente formadas. Ao
analisar o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC), observamos que
essa janela temporal é consideravelmente maior, iniciando na metade da terceira
semana de gravidez, seguindo durante toda a gestação e continuando por longo
período de vida pós-natal.
O
neurodesenvolvimento é composto por diferentes etapas, dentre as quais está o
surgimento e fechamento do tubo neural (estrutura inicial que dará origem a
todo o SNC); a proliferação, diferenciação e migração neuronal; processos de
mielinização (capa de gordura que envolve os prolongamentos axonais),
sinaptogênese (formação de sinapses que estabelecem a “conversa” entre os
neurônios) e apoptose (morte celular programada). Sim, parece estranho, mas
algumas células precisam morrer para o desenvolvimento normal. Todas essas
etapas são finamente reguladas e envolvem uma ampla gama de sinais químicos
“orquestrando” o processo. Alterações derivadas de influências negativas do ambiente,
como exemplo o uso de substâncias químicas (drogas, medicamentos, etc.), além
de estresses psicológicos no início da vida, podem resultar em algum tipo de
transtorno. Os prejuízos vão depender de muitos fatores, tais como dieta
materna, uso de substâncias, genética, o período da gestação em que houve a
influência negativa, e outros.
Neste momento
você deve estar se perguntando: Ok! Já deu para compreender que muitos danos
podem ser resultantes de alterações nas etapas do desenvolvimento, mas como será
que as pesquisas nessa área são feitas? Será que mulheres gestantes e seus
bebês são expostos às substâncias tóxicas e estresses psicológicos com intenção
de avaliar os resultados ao longo da vida? Por mais absurdo que possa parecer,
estudos semelhantes já ocorreram em meados do século passado! No entanto, na
atualidade, com certeza isso está fora de cogitação. Para esse tipo de
estudo, costumam ser utilizados modelos animais, principalmente roedores (ratos
e camundongos). Importante ressaltar que toda pesquisa utilizando animais
precisa ser aprovada por um comitê de ética para uso de animais experimentais e
que todos os cuidados necessários que possibilitem o bem estar destes animais
são realizados.
Certo! Mas você
só pode estar brincando que é possível comparar os estágios do
neurodesenvolvimento humano em roedores? Isso não parece fazer sentido! Posso
garantir que sim, é possível! Quando pensamos em gestação, costumamos definir
em tempos cronológicos (dias, semanas, meses). Mas quando falamos de desenvolvimento,
é correto tratar como fases, ou estágios maturacionais, os quais estão
presentes em todas as espécies e variam nos marcos temporais, conforme o grupo
animal.
A gestação
humana típica ocorre ao longo de 9 meses. Em ratos e camundongos esse período
gestacional é muito menor, em torno de 20 dias. No entanto, ao se falar de
neurodesenvolvimento, é possível mimetizar de forma bastante fidedigna, todos
os estágios que ocorrem no desenvolvimento do SNC em humanos. Como você pode
observar na Figura 1, os eventos que ocorrem nos primeiros 10 dias da gestação
em roedores equivalem aos 3 primeiros meses da gestação em humanos. Os últimos
10 dias da gestação em roedores correspondem ao segundo trimestre de gestação
humana. Já os processos que ocorrem nos últimos 3 meses da gestação em humanos,
podem ser mimetizados de forma equivalente nos primeiros 10 dias do período
pós-natal em roedores. Como exemplo, no dia embrionário 7 (E7) em roedores,
está completa a fase de gastrulação (organização das camadas celulares
iniciais) e inicia-se a neurogênese (formação de neurônios). Estes mesmos
eventos ocorrem em embriões humanos no final de terceira semana de gestação. No
E15 de roedores já temos os neurônios corticais organizados em camadas,
equivalente à semana 14 da gestação humana. Já os dias pós-natais 7 a 10 em
roedores, correspondem as semanas 36 a 40 em humanos (final da gestação), onde
temos o pico de gliogênese (formação de células da glia).
Figura 1. Períodos equivalentes do neurodesenvolvimento em roedores e humanos. DG,
dia gestacional. DPN, dia pós-natal. Fonte: Patten et al., 2014;
The alcohol pharmacology education partnership, 2018.
Esses
conhecimentos permitiram avanços importantes nos estudos em
neurodesenvolvimento, trazendo à luz muitos mecanismos envolvidos em cada
Transtorno do Neurodesenvolvimento. Permitindo o avanço na criação de
intervenções farmacológicas e não farmacológicas que, posteriormente, podem ser
translacionadas e aplicadas em humanos acometidos por estes transtornos. Neste
sentido, é possível melhorar a qualidade de vida do indivíduo e seus
familiares, bem como agregar benefícios a sociedade como um todo.
REFERÊNCIAS
Bianco, C.D.; Brocardo, P.S. Modelos animais de
exposição ao álcool durante o desenvolvimento: uma revisão sistemática da
literatura. Trabalho de Conclusão de Curso. Centro de Ciências Biológicas,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2017. Disponível
em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/176843?show=full. Acesso em: 25 maio 2020.
Patten,
A.R.; Fontaine, C.J.; Christie, B.R. A comparison of the different animal
models of fetal alcohol spectrum disorders and their use in studyind complex
behaviors. Frontiers in Pediatrics, v. 2, p. 1-19, 2014.
The
alcohol pharmacology education partnership: when can alcohol damage the fetus? 2018.
Disponível em: https://preventionconversation.org/2018/05/22/the-alcohol-pharmacology-education-partnership-when-can-alcohol-damage-the-fetus/. Acesso
em: 26 Maio 2020.
Sharon et al. The Central
Nervous System and the Gut Microbiome. Cell 167,
November 3, 2016.

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