Será que lembro onde deixei minhas chaves?
Já
dizia o psicanalista Freud “somos aquilo
que lembramos e aquilo de que nos esquecemos”. A memória influencia a maior
parte de nossos comportamentos e das nossas emoções, e por isso um rico sistema
de plasticidade neuronal permite que nossas memórias sejam
formadas, fortalecidas ou enfraquecidas com o passar do tempo. Como saberemos
se vamos lembrar do momento presente no futuro? Como lembrar onde o carro está
estacionado? Por que não lembro onde deixei os óculos? São inúmeros os fatores
que influenciam o armazenamento desses eventos. O hábito, a rotina e a atenção,
por exemplo. Por outro lado, o valor emocional conta muito para que nossas
memórias fiquem guardadas por mais tempo. Por isso que alguns eventos, mesmo
com o passar de muitos e muitos anos, podem ser relembrados com riqueza de
detalhes. O dia que casamos, a nossa formatura, o nascimento de um filho, são
alguns momentos de muita emoção e que são sempre recordados.
No
nosso cérebro, os neurônios da região do hipocampo são os responsáveis em formar
memórias. As conexões neuronais chegam no hipocampo pelas informações
sensoriais, como o som, a visão e o tato, e lá no hipocampo essas informações
formam novam conexões onde permanecem por alguns segundos, horas ou mesmos
dias. Os conjuntos de células que são ativados para armazenar as memórias
durante um aprendizado são chamados de traços. O hipocampo é a porta de entrada
para a formação de novas memórias. Mas com o passar do tempo, os traços de
memória deixam de ser ativados no hipocampo e passam a exigir a ativação do
córtex cerebral onde permanecem por muito mais tempo, até mesmo uma vida
inteira. Em uma analogia simples ao computador, o hipocampo seria a memória RAM
e o córtex o disco rígido.
Para
estudar as conexões neuronais, cientistas estão utilizando uma ferramenta
conhecida como optogenética, de modo que circuitos são experimentalmente ativados
ou inibidos utilizando como estímulo a luz. As vantagens dessa tecnologia em
neurociências é que se tornou possível selecionar os tipos de células e o tempo
de manipulação de forma precisa e controlada, como um interruptor
“liga-desliga”. No hipocampo, os neurônios do giro denteado e da região CA3 são
ligados quando a memória está sendo formada e com essa nova ferramenta foi
possível apagar essa memória com o clique da luz. Ou seja, a inibição optogenética
dos neurônios utilizados durante a formação da memória impediu que os roedores
relembrassem o evento associado ao contexto em que estavam expostos (Denny e
colaboradores, 2014).
A
formação de novos neurônios no hipocampo, um evento conhecido como neurogênese,
também acontece enquanto as memórias são formadas. Novos neurônios se
multiplicam na região chamada giro denteado no hipocampo, e de lá passam a
integrar a neuroplasticidade da memória. Cientistas demonstraram que se a formação
de novos neurônios for impedida no momento de um aprendizado, ocorre prejuízo
na ativação dos neurônios da região CA3 do hipocampo, que recebe as informações
do giro denteado, e assim a recordação da memória fica prejudicada (Denny e
colaboradores, 2014).
No
entanto, sempre é importante lembrar que o balanço na neurogênese é tão
importante quanto o evento por si. Embora novos neurônios participem na
formação de novas memórias, muita neurogênese pode ser tão prejudicial quanto a
falta. Esses novos neurônios do giro denteado são importantes no processo de
“separação de padrão”, que significa a capacidade de reconhecer diferenças em
ambientes ou características muito semelhantes, o que pode ajudar a não
confundir o seu carro no estacionamento, por exemplo. Do mesmo modo, a
neurogênese possui um papel fundamental no esquecimento, sendo que o aumento de
novos neurônios prejudica muito a retenção de memórias. De fato, foi
demonstrado que filhotes de roedores que possuem pouca neurogênese hipocampal
apresentaram melhor retenção de memórias que os adultos da mesma espécie.
Assim, um equilíbrio na formação de novos neurônios seria ideal para a formação
e manutenção de uma lembrança ou nova informação (Mongiat e Schinder, 2014).
Lembrar
onde estão as chaves é um complexo fenômeno neuronal, que depende da ativação
de circuitos no hipocampo. Assim, a importância do evento associado ao contexto
e ao tempo que passou entre o evento e a recordação da memória dependem da
integridade dos neurônios que estão se formando e das conexões entre os
neurônios já existentes. Fortalecer essas conexões é o segredo para manter a
memória por muito mais tempo.
Referências
Denny CA, Kheirbek MA, Alba EL, Tanaka KF, Brachman
RA, Laughman KB, Tomm NK, Turi GF, Losonczy A, Hen R. Hippocampal memory traces
are differentially modulated by experience, time, and adult neurogenesis.
Neuron. 2014 Jul 2;83(1):189-201. doi: 10.1016/j.neuron.2014.05.018. PMID:
24991962; PMCID: PMC4169172.
Mongiat LA, Schinder AF. Neuroscience. A price to pay
for adult neurogenesis. Science.
2014 May 9;344(6184):594-5. doi: 10.1126/science.1254236. PMID: 24812393.
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