O papel do hipocampo em Fake News e Memórias falsas

O papel do hipocampo em Fake News e Memórias falsas

 

“Fake news” é um termo relativamente novo para notícias falsas com alta capacidade de viralização que vem cada vez mais influenciando nossas vidas. Mas, como o nosso cérebro reage a fake news?

“Fake news” é um termo relativamente novo para notícias falsas com alta capacidade de viralização que vem cada vez mais influenciando nossas vidas. Mas, como o nosso cérebro reage a fake news?

A primeira lição que precisamos aprender é que fake news é criada para chamar a nossa atenção. Nosso cérebro gosta de novidades e em geral as fake news são recheadas delas. Nosso córtex sensorial filtra e processa com prioridade novas informações. Novidade também é sinônimo de motivação e aumento da plasticidade hipocampal. O aumento da neuroplasticidade aumenta o aprendizado e a memória.

A plasticidade hipocampal é de particular interesse do meu grupo de pesquisa (LANEP) em Neurociências na UFSC. Estudamos como a novidade no ambiente moradia de roedores pode aumentar a neuroplasticidade e modular o aprendizado e a memória. Mas como a plasticidade hipocampal está relacionada com fake news? O hipocampo é uma região encefálica responsável entre outras funções pela formação, organização e armazenamento de novas memórias, além de conectar certas sensações e emoções à essas memórias.

A consolidação da memória é um processo que ocorre durante o sono, um tempo curto para integrar todas as nossas informações diárias. Por esse motivo, o cérebro está adaptado para priorizar certos tipos de informação. Informações emocionalmente provocativas têm uma chance maior de permanecer em nossas mentes e serem armazenadas como memória de longo prazo. A maioria das fake news possui uma narrativa com elevado apelo emocional e seduz pelos formatos utilizados.

O fascínio de notícias falsas é, portanto, reforçado por sua relação com a formação da memória. Um estudo recente publicado na Psychological Science destacou que a exposição à propaganda pode induzir falsas memórias (memória de um fato que nunca existiu!). Nesse experimento de memória falsa, os cientistas reuniram eleitores irlandeses na semana anterior ao referendo de aborto em 2018 e apresentaram seis vídeos sendo que dois eram fake news. Metade dos participantes relatou uma memória falsa para pelo menos uma notícia falsa. Uma análise mais detalhada revelou que os eleitores eram mais suscetíveis a formar memórias falsas para notícias falsas que se alinhavam estreitamente com suas crenças. Ou seja, quando o conteúdo é conveniente, é mais provável que as pessoas acreditem, mesmo que isso signifique que precisam inventar memórias no processo.

Mas como é possível “recordar” memórias falsas?

Para exemplificar que memórias muitas vezes podem não ser confiáveis. Quero compartilhar aqui um estudo publicado na Science em 2013, onde os pesquisadores criaram uma memória falsa em camundongos manipulando algumas células de memória no hipocampo. Os animais eram colocados em um ambiente onde recebiam um choque nas patas e apresentavam uma reação de medo. Os neurônios hipocampais ativados por essa exposição ao contexto do choque foram marcados e posteriormente reativados  em um ambiente diferente. O grupo experimental mostrou resposta ao medo aumentado no contexto no qual nunca houve choque nos pés. A recuperação dessa memória falsa foi específica do ambiente e ativou regiões cerebrais envolvidas durante a recuperação natural da memória do medo e também foi capaz de gerar uma resposta ativa ao medo. Os pesquisadores mostraram que imediatamente após a lembrança da memória falsa, os níveis de atividade neural também eram elevados na amígdala, um centro de medo no cérebro que recebe informações de memória do hipocampo, exatamente como quando os animais lembram uma memória genuína. Esses dados demonstram que é possível gerar uma memória de medo representada internamente e expressa no comportamento por meios artificiais.

Se é possível criar memórias falsas em camundongos imagina o que podemos criar quando as notícias não se encaixam em nossa história pessoal sobre como o mundo funciona!

Vivemos em um mundo que as redes sociais influenciam nossas vidas recomendando conteúdo que estão de acordo com as nossas crenças e fica cada vez mais difícil ver o mundo de uma perspectiva diferente. Vivemos em bolhas de informação onde não precisamos enfrentar desafios intelectuais ou considerar uma opinião diferente da nossa. Na falta desse tipo de exposição corremos o risco de ficar polarizados. Nosso cérebro se torna um terreno fértil para que notícias falsas se insiram e criem memórias falsas.

Existe alguma coisa que podemos fazer para não sermos iludidos por fake news? O primeiro passo é reconhecermos nossas vulnerabilidades e verificar sempre os fatos antes de inventarmos memórias e pior ainda perpetuar essas falsas informações compartilhando esse tipo de conteúdo. 

Patricia de Souza Brocardo, Ph.D.

Neurocientista 

 

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