BNDF: o mocinho na novela da vida

Manter um estilo de vida saudável pode vir de uma motivação bastante diferente para cada um de nós. Quando estamos falando de estilo de vida podemos estar nos referindo a prática de exercícios físicos, a dieta, a qualidade do sono, a estímulos cognitivos (que pode incluir os estudos, leituras, aprendizado de novas línguas, determinados jogos, etc.), ou seja, o repertório é vasto!

Seja qual for a motivação, e mesmo que aparentemente (só aparentemente mesmo) não tenha nenhuma, a saúde do seu cérebro agradece a um estilo vida mais ativo e saudável. Isso porque existe uma proteína que é aumentada nestas condições: é o BDNF (do inglês: Brain-derived neurotrophic factor; em portugês: Fator neurotrófico derivado do encéfalo). O BDNF é uma proteína que pertence à família das neurotrofinas, e como tal, atua no sentido de promover a sobrevivência, o desenvolvimento e até o surgimento de novos neurônios. Se você ainda não achou motivação suficiente para adotar um melhor estilo de vida, aqui vai mais alguns benefícios do BDNF: melhora do aprendizado e memória, prevenção/atraso no desenvolvimento de doenças relacionadas ao sistema nervoso, melhora na depressão e ansiedade e por aí vai...

Vejamos mais de perto um exemplo da interação de BDNF no contexto de uma doença neurodegenerativa. A Doença de Huntington (DH) é uma condição hereditária e tem como sintoma mais relatado a coreia, que são movimentos involuntários, mas também apresenta sintomas psiquiátricos, cognitivos e periféricos como a perda de peso. Nessa doença neurodegenerativa, ocorre morte celular principalmente em uma região que fica na base do cérebro denominada estriado, que é responsável pelo controle dos movimentos.

A DH como uma doença hereditária transfere sua herança através dos genes, especificamente através de um gene que codifica uma proteína denominada huntingtina. Como na DH esta proteína se encontra mutada ela deixa de cumprir algumas de suas funções sendo que uma delas é promover justamente a produção de BDNF. Ou seja, na DH a huntingtina deixa de promover a produção de BDNF e os níveis desta neurotrofina tornam-se baixos. O que fazer para aumentar os níveis de BDNF você já deve imaginar. Entretanto, é claro que por mais lógico/plausível que algo seja, só o método científico pode comprovar. Então, a seguir descreveremos brevemente um estudo mostrando essas interações.


Em laboratório, o ambiente em que os animais se encontram é mais controlado que o nosso ambiente. Então é possível fazer experimentos para testar a eficácia daquilo que é chamado de um estilo de vida mais ativo e saudável. Esse ambiente, em laboratório, é denominado “ambiente enriquecido”.

Um estudo conduzido por Spires e colaboradores, utilizou camundongos R6/1 (um modelo animal que mimetiza alguns sintomas da DH) e como tratamento utilizou o ambiente enriquecido que consistiu em diversos objetos na caixa de residência dos camundongos e que eram trocados a cada dois dias a fim de manter a novidade. Eles analisaram a parte motora desses camundongos primeiramente em um ambiente não-enriquecido. Foi observado que de fato os camundongos R6/1 têm um desempenho pior em uma tarefa motora (neste caso eles caiam mais rápido de uma barra giratória). No entanto, quando esses camundongos iam para o ambiente enriquecido, eles se igualavam aos camundongos saudáveis no desempenho desta tarefa!

Essa melhora também já foi relatada em diversos outros trabalhos com DH, onde o ambiente enriquecido teve o potencial de atrasar o início dos sintomas. Ou seja, por mais que a DH seja uma condição determinada geneticamente, o estilo de vida tem o potencial de atrasar o início dos sintomas e oferecer uma melhor qualidade de vida. Aquele mesmo estudo também demonstrou que os níveis de BDNF que estavam diminuídos no estriado de camundongos R6/1 obtiveram um aumento através do ambiente enriquecido. Assim, pelos resultados encontrados, podemos hipotetizar que o enriquecimento ambiental foi capaz de aumentar os níveis de BDNF no estriado o que provavelmente criou melhores condições de suporte aos neurônios estriatais e assim esta região encefálica cumpriu seu papel sob as funções motoras.


Referência: SPIRES, T. L. et al. Environmental Enrichment Rescues Protein Deficits in
a Mouse Model of Huntington's Disease, Indicating a Possible Disease Mechanism.
Journal Of Neuroscience, [S.L.], v. 24, n. 9, p. 2270-2276, 3 mar. 2004. Society for
Neuroscience. http://dx.doi.org/10.1523/jneurosci.1658-03.2004.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Neuroplasticidade: mocinho ou vilão?

Janelas de oportunidade - tudo no seu tempo

Você já se perguntou por que o estresse nos afeta tanto?