O consumo de bebidas alcoólicas durante a gestação: que quantidade é segura?
Deu positivo! Eis uma exclamação
simples que pode despertar um turbilhão de sentimentos, pensamentos e emoções
na maioria dos seres humanos. Quando uma gravidez é confirmada, além da alegria
(ou do susto) em saber que tem um bebê a caminho, surgem uma série de
questionamentos: será que vai ser menino ou menina? Será que vai nascer
saudável? Será que vou conseguir lidar com uma criança? Será parto normal ou
cesárea? Será que terei de alterar muito a minha rotina? Será que poderei
continuar bebendo minha cervejinha? Quem sabe uma taça de vinho ou uma
caipirinha?
Muitas destas questões não
podem ser respondidas por essa pessoa que aqui escreve, mas as duas últimas com
certeza possuem uma resposta bem estabelecida e cientificamente confirmada:
Não! Você não deve consumir bebidas alcoólicas durante a gestação, nem durante
a amamentação. E nesse ponto da conversa é normal aparecer a dúvida, ou mesmo
um ar de protesto: Tá! Mas não posso beber nem um pouquinho? Só uma taça de
vinho não deve ser tão ruim assim!
Quando falamos no
desenvolvimento de um novo indivíduo, podem ser abordados diversos períodos e
estruturas em formação. Mais especificamente, nos períodos embrionário e fetal é
que ocorrem as maiores, e incríveis, transformações. Onde uma única célula vai
originar todas as complexas estruturas que constituem um organismo
funcionalmente ativo, um ser vivo. Desta maneira, e focando no desenvolvimento
de um ser humano, cada órgão ou estrutura se encaixa em uma “janela” temporal
de desenvolvimento, ou seja, tem uma data para iniciar e uma data para encerrar
esse processo.
Pensando em exemplos
práticos, o período temporal para desenvolvimento do coração inicia-se na
quarta semana de gestação e encerra ao final da oitava semana. Braços e pernas
se desenvolvem do início da quinta semana gestacional até o final da oitava
semana. Neste sentido, se o embrião em formação for exposto a determinadas
condições ambientais prejudiciais, dentre as quais se encontra o consumo de
bebidas alcoólicas, poderão ocorrer problemas nessas estruturas, as chamadas
más formações. Essas alterações podem se refletir em prejuízos funcionais na
vida futura desse indivíduo, ou mesmo serem incompatíveis com a vida, levando
ao aborto ou morte pré-matura no período pós-natal.
Então, um momento de
alegria, ou pelo menos tranquilidade, em um acompanhamento de pré-natal é
quando pode-se ouvir o batimento do coração e quando é possível visualizar
imagens fetais com todos os membros e estruturas do corpo aparentemente bem
desenvolvidos. Muitas vezes, essa é uma fase da gestação onde acredita-se que
já não ocorram mais problemas relacionados ao uso de substâncias tóxicas,
incluindo o álcool. Aqui entra uma questão chave de nossa conversa, e que
muitas pessoas desconhecem, como se organiza temporalmente o desenvolvimento do
sistema nervoso central (SNC)?
O neurodesenvolvimento se
inicia na terceira semana de gestação, segue durante todo o período gestacional
e continua após o nascimento, sendo que algumas estruturas, com destaque o
córtex pré-frontal, encerram o completo desenvolvimento após os 21 anos de
idade. Mediante estas informações já é possível inferir que o uso de determinadas
substâncias pode prejudicar o desenvolvimento neurológico e ocasionar prejuízos
ao indivíduo em formação. Nesse sentido, vamos abordar alguns problemas
decorrentes do uso de álcool durante o neurodesenvolvimento.
Em torno da metade da
terceira semana da gestação, quando muitas vezes a mulher ainda nem sabe que
está grávida, ocorrem eventos críticos do neurodesenvolvimento, como o
surgimento e fechamento do tubo neural (neurulação). A extremidade mais
anterior desse tubo vai dar origem ao encéfalo e a parte mais posterior irá
formar a medula espinal. O consumo de álcool nessa fase pode ocasionar
problemas graves resultantes da organização incorreta ou não fechamento das
extremidades do tubo neural, tais como anencefalia, microcefalia ou espinha
bífida.
Após o fechamento do tubo
neural, inicia-se um longo processo que envolve proliferação e migração
neuronal, mielinização, apoptose (morte celular programada) e sinaptogênese
(formação de sinapses, mais especificamente inicia-se a “conversa” entre os
neurônios). Esses eventos vão determinar o correto posicionamento das
diferentes estruturas que compõem o SNC, bem como permitir que estas estruturas
se comuniquem e se tornem funcionais. Desta maneira, todas as fases do
desenvolvimento são “finamente orquestradas” e, embora os problemas mais graves
possam ocorrer no primeiro trimestre gestacional, o uso de álcool durante o
segundo e terceiro trimestre da gravidez e durante a amamentação também pode
desencadear problemas, principalmente a nível comportamental e, muitas vezes,
tornando-se evidentes quando a criança inicia a vida escolar.
O conjunto de problemas
decorrentes do uso de álcool durante a gestação é denominado Transtornos do
Espectro Alcoólico Fetal (TEAF). A manifestação mais grave de TEAF é a Síndrome
Alcoólica Fetal (SAF), que ocorre mediante consumo crônico de altas doses de
álcool, ou seja, a mãe bebe muito durante toda a gestação. A SAF é a única que
pode ser diagnosticada sem a mãe confirmar que bebeu e possui critérios
específicos de avaliação: 1) Dismorfologias faciais, que são alterações da face
e cabeça. 2) Atraso no crescimento, tanto ao nascer quanto ao longo da vida. 3)
Alterações neurológicas, como atraso no desenvolvimento motor, irritabilidade,
déficits cognitivos, problemas de atenção, dentre outros.
No entanto, embora a SAF
apresente um comprometimento neurológico mais elevado, o consumo de baixas
doses de álcool em qualquer período da gestação pode levar a várias alterações
neurológicas mais “sutis”, que vão acompanhar esse indivíduo por toda a vida.
Muitas vezes se tornam as crianças “problema” na escola, pois podem ser mais
agitadas, ter dificuldades de atenção, ter um baixo limiar à frustração, se irritarem
facilmente, apresentarem déficits no processo de aprendizagem, dificuldades no
convívio social, maior propensão ao uso de álcool e outras drogas, dentre
outros.
São vários os fatores
envolvidos com a gravidade do uso de álcool durante o neurodesenvolvimento, dentre
os quais destaca-se o período da gestação e a quantidade de álcool ingerida, o
padrão de consumo (se a pessoa é alcoolista e bebe muito todos os dias, se
ocorreu um consumo pesado uma única vez, se ocorreu um consumo baixo ou
moderado de forma repetida alguns dias na semana, etc), a genética materna, e outros
fatores como a qualidade da alimentação e o aporte nutricional. Além disso, o
círculo social e a rede de apoio dessa gestante também exercem influência ao
uso ou abstinência de bebidas alcoólicas nesse período.
Importante salientar que
muitas mulheres fazem uso de álcool durante a gestação pois não tem o
conhecimento dos riscos, e isso não se limita a pessoas de nível de
escolaridade menor ou classe social mais baixa. Portanto, o objetivo final
deste texto não é criticar ou culpar mães que beberam durante a gravidez, mas
sim alertar sobre todos os problemas que podem acompanhar esse indivíduo (que
foi exposto ao álcool durante o desenvolvimento) ao longo da vida e que são
totalmente evitáveis, basta não beber nesse período. Além disso, mulheres que
não pretendem engravidar, mas que se colocam em situação de risco (como não
usar métodos contraceptivos) devem se abster do uso de bebidas alcoólicas.
A partir do momento em que temos uma informação importante, devemos levar adiante, isso pode proteger muitas vidas em desenvolvimento. Compartilhe essa mensagem com seu círculo social: Consumo de álcool durante a gestação, nenhuma dose é segura e nenhum período é seguro!
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