Bem embaixo do seu nariz – o que a percepção a cheiros pode predizer sobre a doença de Alzheimer
A população mundial está envelhecendo. E com isso, os casos de doenças neurodegenerativas vem crescendo a cada ano. Dentre essas, a doença de Alzheimer é a que mais prevalece, seguida da doença de Parkinson.
Infelizmente, essas doenças não tem cura, e a sua progressão
é inevitável. Enquanto pesquisas clínicas e pré-clínicas tentam descobrir as
causas genéticas e biológicas envolvidas com a neurodegeneração, o diagnóstico
precoce e tratamentos tentam minimizar a progressão e garantir a qualidade de
vida aos indivíduos acometidos. Nesse aspecto, antes de identificar os
primeiros sinais de esquecimentos ou dos tremores, pacientes podem desenvolver
a perda do estímulo olfatório. Mas como a perda do olfato estaria relacionada com
essas doenças neurodegenerativas?
Em 2013, um estudo científico publicado na revista Scientific Reports apresentou um teste para detecção do cheiro da pasta de amendoim para diagnosticar pacientes acometidos com Alzheimer. Esse teste, simples, consistia em colocar uma quantidade da pasta de amendoim em um recipiente a uma certa distância da narina do paciente, estando a outra narina e os olhos fechados. Com o auxílio de uma régua, era medida a distância mínima em que os indivíduos conseguiam detectar o cheiro. O teste era repetido com a outra narina. Os pesquisadores, sem saber os diagnósticos dos pacientes que passaram pelo teste, descobriram que aqueles indivíduos nos estágios iniciais da doença de Alzheimer apresentavam uma assimetria em sua capacidade de detectar odores, com a narina esquerda se tornando mais fraca do que a direita. Enquanto o lado direito conseguia detectar o odor da pasta de amendoim a uma distância média de 20 cm, o lado esquerdo somente sentia em média com 10 cm nesses pacientes. Essa assimetria não se apresentou nos indivíduos saudáveis. A percepção ao cheiros depende da integridade do sistema olfatório, e na transmissão de seus estímulos.
O sistema olfatório é formado pelo epitélio olfatório, no teto da cavidade nasal, onde neurônios sensoriais detectam partículas de odor presentes no ar e projetam-se para o bulbo olfatório e, do nervo olfatório, para o córtex piriforme. O córtex piriforme localiza-se muito próximo do sistema límbico, responsável pelas emoções e memórias emocionais. Não é a toa que memórias olfativas costumam estar relacionadas com sensações como prazer, afetividade, ou mesmo raiva. Muitos animais utilizam o sistema olfatório para encontrar comidas, detectar perigos, e até para escolher o parceiro sexual. Humanos também utilizam essa ferramenta, mas de modo bem menos valorizado que estímulos sensoriais visuais ou sonoros. No entanto, o funcionamento da olfação garante a integridade do meio de sobrevivência, além de estar relacionado com o prazer e a qualidade do funcionamento do paladar. Sentir o cheiro de comida, por exemplo, estimula as papilas gustativas para perceber o sabor dos alimentos.
Os neurônios localizados na cavidade do epitélio nasal estão em constante renovação. As moléculas de odores, ao ativar os receptores sensoriais, ativam os glomérulos olfatórios localizados no bulbo olfatório, formando um padrão de ativação e assim, de reconhecimento e identificação do cheiro. O cérebro pode ser treinado para detectar e diferenciar odores, e por isso alguns indivíduos podem ter uma melhor percepção olfatória que outros.
No caso de doenças neurodegenerativas, a disfunção olfatória está intimamente relacionada com a dificuldade em novos neurônios serem formados no sistema olfatório, e por isso, essa dificuldade precoce na neuroplasticidade seria o link entre os déficits olfatórios e a neuroplasticidade relacionada com os aspectos cognitivos que aparecem no início dos sintomas degenerativos. Na doença de Alzheimer, sabe-se que a formação de placas amiloides estão presentes no cérebro de pacientes. Pesquisa acerca da presença da forma solúvel dos oligômeros beta-amiloides identificou o seu acúmulo no sistema olfatório periférico, o que poderia ocasionar a perda olfatória em modelos animais.
Mais recentemente, a presença desses oligômeros também foi localizada em secreção nasal de humanos, estando relacionados com a presença dos sintomas cognitivos. Essa poderia ser uma promissora técnica para um diagnóstico simples e rápido da doença de Alzheimer. A análise da secreção nasal não é invasiva e apresenta um baixo custo, o que facilitaria a realização dessa técnica de diagnóstico em clínicas. Além do mais, os níveis da forma "solúvel" desta proteína podem ser usados não apenas para separar indivíduos saudáveis de pacientes com Alzheimer, mas também prever o início e progressão da doença ao longo de um período de três anos, segundo os autores desse estudo.
Embora o sistema sensorial olfatório aparenta ser tão insignificante e distante das funções de aprendizado e de memória, o seu total funcionamento poderia indicar um aspecto saudável das funções do sistema nervoso central. Nos resta além de detectar o seu mal funcionamento, descobrir uma alternativa de impedir que a progressão da neurodegeneração cause sintomas tão agravantes em pacientes com Alzheimer.
Referências
Yoo, S.,
Son, G., Bae, J. et al. Longitudinal profiling of oligomeric Aβ in human nasal discharge reflecting
cognitive decline in probable Alzheimer’s disease. Sci Rep 10, 11234
(2020). https://doi.org/10.1038/s41598-020-68148-2
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