Por que fazer cócegas em um rato?


          Imagine a seguinte cena: você está usando um jaleco branco em uma sala cheia de gaiolas com ratos – essa sala é chamada de biotério e você é um jovem pesquisador. Atento para conhecer os comportamentos dos ratinhos, você escolhe uma das gaiolas para observar mais de perto.

          Na gaiola escolhida há apenas dois ratos, água e comida a vontade. Você observa que não há muito com o que eles possam interagir ali dentro – a não ser entre eles mesmos. Cada rato está no seu canto, mas de repente, um deles se aproxima e com o focinho toca a nuca do companheiro como se estivesse “solicitando” sua atenção. O companheiro responde girando de forma a ficar deitado com as patinhas para cima. Então, o rato que iniciou a interação se posiciona acima dele “fixando-o” por alguns segundos.

      Intrigado você procura entender que tipo de comportamento é aquele. Buscando mais informações sobre os ratinhos que estavam sendo observados, você lê a etiqueta de identificação fixada na gaiola. Trata-se de dois ratos machos de 35 dias de vida, ou seja, são ratinhos jovens que há poucos dias ainda estavam com a mãe.

       O que esses dois jovens ratos estavam fazendo? Eles estavam brincando! Sim, a brincadeira social não é exclusiva da nossa espécie. Em ratos, esse comportamento é abundante por volta dos 35 dias de vida e diminui conforme a maturação sexual.  Os movimentos descritos anteriormente são conhecidos pelos termos em inglês “pouncing” (fase de iniciação/solicitação) e “pinning” (fase da resposta) – estes são os movimentos mais característicos da brincadeira social em ratos juvenis.

          Talvez não seja tão óbvio compreender a relevância da brincadeira social e do porquê pesquisar sobre o tema. De fato, uma criança brincando com seus amigos não nos traz nenhuma grande reflexão sobre o processo. Por outro lado, interações sociais prejudicadas em crianças nos chamam a atenção, podendo chegar a diagnósticos como Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

          Mesmo jovens, obviamente não é a todo o momento que ratos estão brincando. Então se os pesquisadores desejam observar este comportamento, precisam alojar os ratos individualmente por algumas horas. Essa curta privação de interação social, aumentam as chances de que, ao reencontrar seu companheiro, os ratinhos brinquem dentro dos primeiros 15 minutos após o reencontro.

O que os estudos realizados nesta área indicam, é que há uma importante função das brincadeiras sociais no desenvolvimento do cérebro e do comportamento e que ratos privados de brincadeira são prejudicados em situações desafiadoras. Embora os circuitos neurais não sejam totalmente compreendidos, evidências apontam o estriado como importante região encefálica neste processo.

O estriado é uma estrutura que fica na base do nosso encéfalo e é um importante centro de controle para a correta sequência dos nossos movimentos. Além de estudos com ratos mostrarem que danos ao estriado afetam o desempenho nas brincadeiras e que tornam elas menos complexas, um interessante estudo com primatas não-humanos também evidenciou o estriado como estrutura-chave no processo. Neste estudo publicado por Graham em 2011, os pesquisadores buscaram correlacionar o tamanho do estriado de diferentes espécies de macacos com o tempo gasto em brincadeiras sociais. O que se observou foi uma correlação positiva, ou seja, macacos que gastavam mais tempo com brincadeiras sociais eram justamente aqueles com estriado maior!

Mas voltando para o nosso biotério do início desta conversa! Você está lá dentro e decide observar outra gaiola. Mas neste gaiola, encontra apenas um rato jovem. E agora está preocupado com os prejuízo que o isolamento pode causar. Será que não há nada que possa ser feito para de alguma fora substituir a brincadeira social? Existe sim. Cócegas!

Parece estranho não é? Mas essa técnica de manipulação é capaz de imitar alguns aspectos da brincadeira social. Uma importante evidência para isso é que, enquanto brincam, os ratos emitem vocalizações na frequência de 50kHz. E adivinha? A mesma frequência de vocalização é emitida quando recebem cócegas. Essa vocalização de 50kHz é um som bem mais agudo do que podemos ouvir (o som mais agudo que conseguimos captar é de 20.000 Hz ou 20kHz). Isso implica que, se quisermos confirmar que estamos fazendo bem ao ratinho, precisamos utilizar um microfone ultrassônico.

Outra importante observação: assim como as brincadeiras sociais são abundantes na fase juvenil, as cócegas, se aplicadas, devem ser feitas em ratos juvenis logo após o desmame (desmame é o momento da separação do filhote da mãe que ocorre geralmente aos 21 dias de vida). Se você fizer cócegas em um rato adulto que não recebeu essa manipulação anteriormente, provavelmente ele não irá gostar causando um efeito oposto ao esperado!

Será que você imaginou ratos brincando e cócegas sendo aplicadas da maneira como realmente acontece? Acesse o link e descubra: https://ag.purdue.edu/ansc/gaskill/resources/

REFERÊNCIAS

Graham, K.L. Coevolutionary relationship between striatum size and social play in nonhuman primates. 2011. DOI: 10.1002/ajp.20898

Siviy. S.M.; Panksepp, J. In search of the neurobiological substrates for social playfulness in mammalian brains. 2011. DOI:10.1016/j.neubiorev.2011.03.006

Trezza,V.; Baarendse, P.J.J; Vanderschuren, L.J.M.J. The pleasures of play: pharmacological insights into social reward mechanisms. 2010. DOI:10.1016/j.tips.2010.06.008

van Kerkhof, L.W.M. et.al. Cellular activation in limbic brain systems during social play behaviour in rats. 2014 DOI: 10.1007/s00429-013-0558-y

van Kerkhof, L.W.M. et.al. Social Play Behavior in Adolescent Rats is Mediated by Functional Activity in Medial Prefrontal Cortex and Striatum. 2013. DOI:10.1038/npp.2013.83



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