A sua ansiedade pode ter origem no seu intestino
Relação entre o que não parecia estar relacionado.
Um grupo de pesquisadores da Suécia faz parte de uma turma de cientistas que começaram a desvendar uma relação que não acreditávamos existir: entre o intestino e o cérebro. Esse texto aqui é um resumo do que esses cientistas fizeram e descobriram!
Alguns estudos vêm indicando uma relação entre doenças do neurodesenvolvimento – como autismo e esquizofrenia, com infecções por patógenos microbianos durante o período perinatal. Mas primeiro, o que seriam esses patógenos microbianos? Podemos dizer que eles são organismos que podem vir a causar alguma doença ao hospedeiro, como bactérias, vírus, etc. Já o período perinatal é referente a mais ou menos depois da metade da gestação até o sétimo dia após o nascimento do bebê.
Outro estudo mostrou que uma bactéria, poderia modular o metabolismo do triptofano, composto que dá origem a serotonina, um neurotransmissor que atua no cérebro em diversos aspectos como humor, homeostase, etc., mostrando a importância desses estudos.
Para tais estudos os pesquisadores utilizaram dois grupos de roedores distintos, os chamados Specific Pathogen Free (SPF), ou seja, animais com a microbiota normal mas sem germes específicos que os fariam desenvolver doenças, como gripe por exemplo; e os Germ free (GF), animais que, por mais que não pareça ser possível, são livres de microorganismos! O que sim, parece surreal quando paramos para pensar que em nosso corpo, em cada lugar, existem inúmeras bactérias de diferentes espécies, grupos e características.
Com base nessa ideia de relação entre bactérias do intestino e o cérebro, eles descobriram que, submetendo esses dois grupos de animais a análises de ansiedade, os roedores do grupo livre de microorganismos (GF) tinham uma atividade mais calma e menos ansiosa quando comparado ao outro grupo. Mas como eles conseguiram medir isso? Eles fizeram diversos testes, vou falar alguns deles aqui para vocês.
A ansiedade nesses animais pode ser medida por meio da locomoção. O animal mais ansioso tende a caminhar menos na caixa que os cientistas os colocam, e foi o que aconteceu com os animais que tinham algumas bactérias (SPF). O grupo de cientistas então decidiu fazer outro teste comportamental que ajudasse a comprovar essa maior ansiedade nos animais com algumas bactérias. Para isso eles utilizaram um teste chamado “Teste do labirinto em cruz elevado” (Figura 1), que consiste em um equipamento com alguns centímetros de altura, que possui um formato de cruz com dois braços fechados e dois abertos. O que eles observaram foi que os camundongos GF passaram mais tempo no braço aberto do que os SPF, indicando que os animais GF são mais engajados em comportamento mais arriscado do que o SPF. Vale lembrar que, como já foi falado em outro post, como o estresse, a ansiedade não necessariamente é algo ruim; a ansiedade foi selecionada ao longo da evolução como uma característica que nos ajuda na preparação para eventos futuros, o problema está quando essa preparação e ansiedade começam a atrapalhar outras funções da nossa vida.
Figura 1 – Labirinto em cruz elevado
Enfim, lembram dos neurotransmissores? As substâncias liberadas por neurônios e captada por outros durante uma sinapse... Então, diferentes neurotransmissores possuem diferentes efeitos, e as diferentes regiões do cérebro que também possuem funções diferentes respondem a essas substâncias. Os cientistas decidiram medir a concentração dos neurotransmissores noradrenalina, dopamina e serotonina em diferentes regiões do cérebro. Os animais GF apresentaram um aumento desses neurotransmissores no estriado. A dopamina no estriado está relacionada com a motricidade voluntária, o que faz sentido quando pensamos que o animal que mais se moveu (o GF), tem mais dessa substância, não é?
Isso tudo e ainda é pouco perto das pesquisas que aparecem a cada ano sobre esse eixo intestino-cérebro que a gente não imaginava que poderia existir. Vale lembrar que a comunicação entre essa microbiota do intestino e o cérebro pode se dar de várias formas, inclusive unidirecionalmente. Como assim? Te explico. Existe um nervo, chamado nervo vago, que entre tantas outras funções, conecta o cérebro e o intestino, por ele o cérebro pode mandar algumas informações para esse órgão, e da mesma forma, informações desse orgão podem ir para o cérebro. Seja o cérebro avisando para o intestino ter uma maior movimentação, ou o intestino e seus microorganismos fazendo com que aquele cérebro fique mais ou menos ansioso.
E você? Sabia da relação entre as bactérias do intestino e o comportamento dos animais? Ainda acha que os sistemas que você estudou estão tão distantes quanto pareciam? Pelo visto barriga e cérebro têm mais a ver do que imaginamos.
Diaz Heijtz R, Wang S, Anuar F, et al. Normal gut microbiota modulates brain development and behavior. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011;108(7):3047-3052. doi:10.1073/pnas.1010529108
E você? Sabia da relação entre as bactérias do intestino e o comportamento dos animais? Ainda acha que os sistemas que você estudou estão tão distantes quanto pareciam? Pelo visto barriga e cérebro têm mais a ver do que imaginamos.
Diaz Heijtz R, Wang S, Anuar F, et al. Normal gut microbiota modulates brain development and behavior. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011;108(7):3047-3052. doi:10.1073/pnas.1010529108
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