O cérebro resiliente
Neurobiologia da resiliência
Nos últimos tempos, muito tem se
ouvido falar sobre resiliência. E no meio dessa pandemia ser resiliente é
fundamental. Mas afinal o que significa resiliência? Resiliência é a capacidade
de manter o funcionamento psicológico e físico normal perante a altos níveis de
estresse ou trauma. Ser resiliente pode evitar doenças mentais graves, como o
transtorno depressivo maior e o estresse pós-traumático.
E o estresse, como viemos falando
em alguns dos posts do blog, pode estar presente em diversas situações da nossa
vida, como o fato de estarmos vivenciando uma pandemia (Pois é!). O estresse é
uma resposta fisiológica diante de uma ameaça. Reagimos rapidamente com uma resposta de ‘’ luta ou fuga ‘’.
No entanto, essa resposta de natureza extrema ou prolongada está entre os
fatores de risco para diversas desordens psicológicas.
As respostas aos eventos que
geram estresse serão sempre diferentes entre os indivíduos, mesmo que esses
eventos sejam semelhantes. E isso acontece porque cada pessoa é um conjunto de
particularidades, que envolvem fatores biológicos e ambientais que a faz
responder diferentemente. No entanto, os pesquisadores notaram que o processo de
resiliência é um fenômeno em comum e não algo extraordinário. Ou seja, que
todos nós podemos desenvolver e que existiam fatores associados a resiliência,
como ter uma rede de apoio e alguns traços pessoais de comportamento, como o
otimismo. E o fator mais relevante apontado foram as estratégias individuais de
enfrentamento de estresse, que serão exemplificadas mais à frente.
Modelos animais de resiliência
Assim como nos seres humanos, o
estresse crônico ou elevado leva ao desenvolvimento de comportamentos
semelhantes a depressão ou a ansiedade em animais. No entanto, isso não
acontece com todos os animais. Alguns deles não demonstram nenhum prejuízo no
comportamento, e são considerados resilientes. Mas como isso funciona na prática?
Para avaliar a resiliência em
animais como roedores, existem diversos modelos. Um deles é conhecido como
estresse repetido por derrota social. Durante um período de aproximadamente 10
dias, um rato ou um camundongo é repetidamente subordinado a um animal dominante.
Por exemplo, um camundongo da linhagem X é derrotado por um camundongo da linhagem Y maior e mais agressivo. Apesar
de sofrerem o mesmo tipo de estresse, cada animal irá responder de forma
diferente (até mesmo os animais geneticamente idênticos). Os animais
susceptíveis aos efeitos do estresse irão apresentar comportamentos semelhantes
a depressão e ansiedade em humanos e os animais resilientes apresentarão
comportamento semelhante aos animais que não sofreram nenhum estresse.
E nesse modelo animal, os
pesquisadores perceberam que os animais que adotavam uma postura menos
submissa, ou seja, adotavam aquelas estratégias de enfrentamento, demostraram
menor fuga social, diminuindo os efeitos do estresse. Incrível, né?!
Mecanismos envolvidos na resiliência
Os mecanismos biológicos
envolvidos nesse processo de resiliência são diversos e complexos. Vocês
lembram do hipocampo? Aquela região cerebral que regula a memória, aprendizado,
o humor (caso queira relembrar, temos um post que explica sobre as regiões do cérebro) e ainda tem um papel na resiliência.
A região do hipocampo também é
muito importante na resposta ao estresse. E isso acontece porque existem muitos
receptores para o hormônio do estresse (cortisol) se ligar. Então é uma área
muito sensível ao estresse. Ou seja, se você fica muito estressado, saiba que
está gerando muita resposta no seu hipocampo!!
Além disso, essa região tem uma
função importante de geração de novos neurônios no cérebro adulto, em um
processo chamado de neurogênese. Super importante na neuroplasticidade, se
lembram desse assunto? E o que acontece é que o estresse e a liberação
excessiva de cortisol, exerce um efeito de diminuição dessa neurogênese
naturalmente. No entanto, nos animais considerados resilientes, existe um
aumento da neurogênese hipocampal logo após o evento estressor sugerindo um possível
mecanismo de proteção a esses efeitos negativos.
No entanto, muitos estudos ainda
são necessários para melhor esclarecer essa relação e os outros possíveis
mecanismos envolvidos. Além disso, esses estudos também são importantes para a
busca de novos tratamentos para doenças relacionadas ao estresse e maneiras de
prevenir os efeitos do estresse.
Referências:
Referências:
CATHOMAS, F. et al. Neurobiology of
Resilience: Interface Between Mind and Body. Biological Psychiatry, v.
86, n. 6, p. 410–420, 2019.
RUSSO, S. J. et al. Neurobiology of resilience. Nature
Neuroscience, v. 15, n. 11, p. 1475–1484, 2012.
Comentários
Postar um comentário