Neuroplasticidade: mocinho ou vilão?
Não faz muito tempo que se
acreditava que o cérebro, assim que terminasse o seu desenvolvimento, se
tornava uma estrutura imutável. Santiago Ramón y Cajal por exemplo, grande
neurocientista do século XX, compartilhava dessa ideia (sim, Ramón y Cajal é
uma pessoa e não duas!).
No entanto, evidências
foram surgindo de que o cérebro adulto poderia ser uma estrutura passível de
mudanças, maleável.....plástico! Nesse sentido, vem o conceito de neuroplasticidade,
ou seja, a plasticidade do sistema nervoso (esse sistema inclui, entre outras
estruturas, o cérebro!).
Mas em que situação o
nosso sistema nervoso poderia ser modificado? Se um estímulo ambiental é capaz
de deixar suas “marcas” no sistema nervoso, temos então um processo de
neuroplasticidade. Em outras palavras, neuroplasticidade é a capacidade de
adaptação do sistema nervoso frente às condições do ambiente.
Veja um exemplo prático: cada parte do nosso
corpo tem sua representação no córtex cerebral* (córtex é como chamamos a fina camada
externa do cérebro ou a “casca” do cérebro se você preferir). Se compararmos o
tamanho da área cortical destinado a representar os dedos da mão esquerda de um
violinista – os dedos utilizados para dedilhar as notas musicais - percebemos
que esta área será maior do que em outras pessoas. É a neuroplasticidade agindo
de acordo com os estímulos ambientais!
Apesar da
neuroplasticidade permanecer presente por toda a vida, existe uma fase em que o
sistema nervoso é especialmente plástico: é o chamado período crítico. Nesse
período, que ocorre durante uma fase da infância, o sistema nervoso é
especialmente sensível aos estímulos ambientais que podem agir como verdadeiros
“podadores”: conexões estimuladas se mantem e são reforçadas e conexões não
estimuladas podem desaparecer.
Neste ponto, você já
deve ter percebido o quanto as influências ambientais são importantes para
moldar nosso sistema nervoso. No entanto, na prática, é difícil separar as
causas e consequências de um estímulo ambiental, afinal são tantos fatores e
experiências que afetam nossas vidas, não é mesmo?
Para resolver essa
questão, os cientistas propuseram um modelo de enriquecimento ambiental que poderia
ser então controlado em laboratório. Neste modelo, estímulos ambientais (como
brinquedos) são ofertados aos roedores dentro de suas caixas moradia. Diversos
estudos mostraram efeitos benéficos do ambiente enriquecido no sistema nervoso (por
exemplo, melhora do aprendizado e memória) quando comparados aqueles roedores
que ficam em uma caixa convencional apenas com maravalha, água e comida.
Mas, poderia existir um
lado vilão da neuroplasticidade? Pense agora, que os estímulos ambientais
também podem ser negativos. Pior: imagine essas experiências negativas
justamente no período crítico. Você pode imaginar as consequências danosas ao
indivíduo...
Mas vamos explorar outro
exemplo. Lembra do nosso violinista que tinha mãos representadas no córtex
cerebral (assim como nós temos, é claro!)? Imagine que por algum motivo ele
precisou ter sua mão amputada. Além da enorme tristeza que você deve ter
imaginado que o violinista sentiu por não poder mais tocar seu violino e
realizar outras tarefas, algo muito peculiar também acontece. O violinista
relata que ainda tem sensações na mão que foi amputada e, pior, que está com
dor na mão que não existe mais. Essa experiência dolorosa é relatada por muitos
pacientes com membros amputados e é chamada de dor fantasma.
Como é possível sentir
dor em um membro que não está presente? Apesar da explicação para essa pergunta
ainda não ser totalmente compreendida pela neurociência, a resposta pode estar
nas modificações que ocorrem no córtex cerebral. Lembre-se de que por mais que
a mão tenha sido amputada, a parte do córtex que representa a mão continua lá!
Porém, uma invasão de áreas corticais vizinhas que representam outras partes do
corpo podem ocorrer. Mesmo que essa região tendo sido ocupada, a memória da
representação original pode continuar lá. Isso explica observações clínicas de
que estímulos na face poderiam provocar sensações na mão amputada. Por esse
ponto de vista, esse rearranjo que ocorreu no córtex cerebral pode ser
considerado então, maléfico.
Mas afinal quais são as
modificações do sistema nervoso de que estamos falando? São modificações que
ocorrem tanto na estrutura quanto na função dos componentes do sistema nervoso
– principalmente dos neurônios. Trata-se da formação de novas conexões,
mudanças na forma das células, aumento/diminuição na produção de determinadas moléculas,
e até mesmo, a formação de novos neurônios. A neurogênese até alguns anos atrás
era algo inconcebível de que pudesse existir na vida adulta, hoje já se sabe
que ela pode existir em lugares específicos do cérebro adulto!
E você, quais estímulos
está apresentando para o seu cérebro? Acompanhe nossos posts e trabalhe o lado
mocinho da neuroplasticidade!
*para mais informações pesquise
sobre o famoso homúnculo de Penfield.
Texto incrível, consegui entender mesmo sendo leiga na área, foi muito bem escrito.
ResponderExcluirParabéns pela iniciativa da página!!
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